Poesias de 1 a 99

Poema #22: Cotidiano

É o lençol posto na cama
é o café posto na mesa
é o homem posto na rua

o trabalho
o dinheiro
o trabalho

e trabalha
e se cansa
todo dia todo dia
o dia todo

é a janta posta na mesa
é o corpo posto na cama

o sono
a insônia
toda noite toda noite
a noite toda

é o homem sem demora
é o homem sem memória

toda vida a vida toda

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Campista Cabral

Campista Cabral, leitor assíduo dos portugueses Camões e Pessoa, do poetinha Vinícius, herdou deles o gosto pelo soneto. A condensação dos temas do cotidiano, assim como a reflexão sobre o fazer poético, parece procurar a sua existência empírica ou, nas palavras do poeta, um rosto perfeito, na estrutura do soneto. Admirador e também leitor obsessivo de Umberto Eco, Ítalo Calvino, José Cardoso Pires, Lobo Antunes, do mestre Machado de Assis e do moçambicano Mia Couto, retira dessas leituras o gosto pela metalinguagem, o prazer em trabalhar um espaço de discussão da criação literária em sua prosa. A palavra, a todo instante, é objeto base dos contos e das crônicas. A memória, o dia-a-dia, o amor, as sensações do mundo e os sentidos e significados da vida estão presos nos mistérios e assombros da palavra.

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